A mata

Ouvi de uma amiga de longa data que ouviu de uma professora a seguinte frase: “A floresta é lar”, achei linda a frase, fantástica, e reflete muito o sentimento que tenho em meu coração de retornar para minhas matas, para o aconchego que tanto faz-me falta.

O exílio tem sido para mim um grande aprendizado, digo exílio pois me foi imposto pela vida, e por todas as circunstâncias do fado, que eu me conserve onde estou longe de minha terra, de meu pedacinho de chão que tanto faz falta ao meu ser, deixando-me incompleto; claro que ninguém pode entender o que sinto, pois as vezes nem eu mesmo entendo, que sentimento é este?

Lá será melhor, lá tudo passará, lá o solo brilhará como não brilha há muito tempo, lá não haverá pessoas ruins, o que é ledo engano. Gente ruim tem em todo lugar, trevas também; o que muda é o que somos por dentro, é o que trazemos em nossos corações, em nossas almas, somos praticamente o espelho de nossa realidade. Se tentarmos ver além do que a fina casca quer nos mostrar tudo pode mudar, ser transformado, porém se nos perdermos dentro de nossa autocomplacência e lamurias não sairemos jamais do lugar; nem tampouco alcançaremos o lugar devido, ou almejado.

Digo que sou pleno, mas como ser pleno se a cada dificuldade minha mente viaja, e vai deitar-se na beira rio da bela Amazônia?

“Esta donzela de fartos seios, e nenhuma malícia, onde todos querem se perder por entre os crespos de seus cabelos folhosos, e o arenoso de seu dorso escondido pelas águas dos igarapés, doce mãe, belíssima senhora afaga meus cabelos e acalenta meu coração, pois este está inquieto com tantas provações, por tantas desaprovações, mãezinha espera que teu filho um dia volta, antes do fim para ser feliz uma vez mais…”

Eu realmente não sei a resposta para tantas perguntas neste turbilhão que  são meus pensamentos e escolhas.

Não posso mal dizer tudo o que já vivi, pois tudo foi escolha, ninguém impôs nada; o caminho que segui me trouxe muitos desafios, e o sonho que mais acalento parece estar cada dia mais distante e fica mais amargo meus dias, nem incomoda as pequenas maldades humanas, e mesquinharias, não, como insetos a picarem uma carne morta ansiando o jazigo; eu sou como um peixe na beira da praia esperando pelas águas do mar, nesta condição esperança já não importa, nada importa a não ser receber um pingo que seja da água esperada, ou pelo menos a promessa de que um dia estas nuvens irão embora, esses fantasmas serão dissipados, e meu nirvana se descortinará.

No fim meu coração não quer mais do que todos os outros querem: paz!, enfim um pequeno refrigério, que Saturno vá embora e leve com ele sua foice tão amarga e necessária, porém dolorosa, chega de dores, chega de viver de longe com espectador, pois dentro da arena o leão rugi, e a plateia aplaude sua derrocada, não há amigos, nunca houve camaradas, apenas almas afins que podem trocas experiências; assim como nunca houve família, sou eu contra o mundo. A luta é interior, e o exterior é apenas ilusão, ilusão que passará com o amanhã informado.

Diz uma canção gospel: “o choro pode durar uma noite…”, esta noite pode ser uma vida inteira, e o “… mas a alegria, ela vem de manhã, bem cedo”, pode vir com o fim desta noite, desta vida, assim é a vida, como loucos estamos sempre a correr perseguindo uma felicidade ilusória, destruindo nossos irmãos por coisas que no fim não nos servirão de nada, pois morremos nus, sozinhos e na decadência, todo o ser humano já existe para esta sina, não há como escapar, por isto a expressão Memento mori, para lembrar que um dia a mais democrática das situações chegará, e todos voltaremos à lama, sim, porque para ser pó, primeiro seremos lama, estaremos envoltos pelos vermes, e algumas pessoas chorarão nossa perda por um tempo ínfimo se comparado com o mundo e depois cairemos no esquecimento relativo. Isto é fato, e deveria ser veneno fatal contra o ego, a cobiça, a safadeza, a rudeza, e todas essas coisas pequenas que perdemos tempo no nosso dia a dia quando nos esquecemos que a senhora Morte baterá em nossas portas tão tarde, ou tão cedo.

Hoje a dor está rondando meu peito, o dia está nublado, lembro que quando pequeno adorava os dias nublados, mas com eles vinham também os medos, as angustias, e os pesadelos; hoje ainda estão a rondar, com nomes diferentes, mas continuam a incomodar, e a querer levar o pouco de dignidade que tento conservar, o pouco de lucidez, e fé. Se consigo superar? não sei!, só sei que tenho que tentar, tenho que viver, nunca fui covarde, e não vou começar de agora, e tenho sempre o propósito firme em saber que sempre posso recomeçar de onde estiver, um dia quem sabe voltarei para minha pátria, para o meu lugar onde ninguém me olhe torto, ou ache-me um usurpador como já aconteceu, acontece e acontecerá; talvez eu reveja meu amigos antigos, mas não é tanto meu desejo, meu desejo é só entrar na mata, passear pelas clareiras, tomar banhos nos rios, deitar na copa das árvores, correr pelado por entre os capins, contemplar as mucuras, pacas e preás; ser quem eu deixei de ser há muito tempo, estar de volta com forças que deixei para trás, comer biribá do pé, e cheira o cupuaçú; não importar-me com a maldade alheia, ó espíritos, permiti que meu sonho se realize, permiti que eu volte triunfante para meu berço, e perdoe-me toda a soberba deste pobre coitado, pois sou filho pródigo, e à casa/mata quero retornar…

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