A menina do rio

E foi na margem do Luges que a menina agachava-se, e punha-se a lavar seus trapos, uns andrajos de tecido que não podiam de maneira alguma ser chamados de roupas. O  sol, seu antagonista queimava sua pele sem viço acentuando mais sua marcas de vida. Os mosquitos implacáveis eram perseguidores vorazes, seu sangue era alimento predileto dos sugadores.

Ia sabão, torcia roupa, e a água que mais suja do que limpa, levava embora as espumas como lembranças que se esvaiam do suor impregnado das roupas. Nenhum detergente poderia mascarar o cheiro da miséria, o odor do sofrimento, das humilhações dos que teimavam em viver por um punhado de moedas, e umas cuias de farinha.  Se existia alguma riqueza na vida dos trabalhadores da Vila São Pedro, eram as crianças,  essas viviam a sorrir e correr pelos campos secos que a ausência de chuva e a ventania constante moldava e desolava.

Um espírito coletivo parecia ter se apossado dos moradores suplantando as personalidades, e substituindo-as por um ego melancólico de uma época passada de fartura e umidade, quando o rio não era barrento, e o vento não destruíra as cabanas. Ali tantas eram as Marias como as estrelas do céu, cada menina que nascia devia ter o mesmo nome como um clamor para alívio da dor dos sãopedrenses, um grito de clamor a grande mãe do céu.

As cantigas da velha Quinha , anciã-mor da vila ecoavam pelo riacho afora saiam de uma garganta seca, e sofrida que não reclamava mais , nem acalentava falsos sonhos de mudanças para seus filhos, ali era um dia de cada vez . Uma dificuldade por etapa, como Heracles e seus trabalhos, sempre multiplicando-se por doze até o infinito de uma vida simples porém cheia de dignidade de um povo grande de alma e de valores. O governo local corrupto levava os poucos recursos da população, entretanto não levara a firmeza de caráter, nem tampouco a vontade forte de querer vencer cada barreira, com a força da resignação e responsabilidade.

As roupas limpas, e levemente tingidas pelo tom barroso do rio seriam estendidas nos varais dos mil morros de Vila São Pedro, as próprias teriam que lutar com unhas, e dentes contra o vento violento e cortante para não se perder por entre as pedras da planície do pó.

Levantava-se e ajeitando seu corpo descarnado, de volta para seu barraco, enfim um trabalho estava encerrado, mil desafios já se avizinhavam com o avançar das horas no céu de intensa luz.

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