A fuga

Janela da alma

A janela aberta permitia a entrada de uma brisa marota pelo cômodo abafado e minúsculo. Espalhado na cama, Benjamin, espreguiça-se demoradamente entre os travesseiros e almofadas de sua ampla cama, tão ampla que cobria mais da metade do espaço do lugar, competindo com o guarda-roupas velho de madeira escura. Para o trânsito restava duas frestas diminutas; uma entre o janelão e a porta formando um corredor, do lado direito a cama, e do esquerdo o roupeiro, restando ainda um vãozinho aos pés da cama de onde projetava-se o janelão, única razão de ser daquele lugar, pois sem a janela seria insuportável existir ali.

Seu mundo resumia-se naquela dimensão de paredes descascantes, e cantos mofados. Calor, umidade, barulho, nada abafava seu maior passatempo: o sono! A fome, e a dor não eram razão para não dormir. Uma outra realidade era descortinada ao fechar seus olhos. A vigília doía, e o despertar era um longo e traumatizante parto complicado, entretanto, seus sonhos eram produtos resultantes de uma fuga quase perfeita de toda aquela miséria, exceto o janelão, que era seu maior tesouro. Poderia ter um cachorro, seria legal, mas o espaço era seu inimigo, tinha todo o tempo do mundo, recompensa dos desocupados forçados.

Suas manhãs eram uma sucessão de decepções, muitas portas, muito chão e nenhum sim, nenhum sorriso ou aprovação, nada de trabalho.

O resto dos seus dias eram reservados para suas aventuras no mundo onírico. Certa feita, por descuido, encontrou um livro antigo deixado num banco de praça, folheando-o desinteressadamente, deteu-se num pequeno poema, uma frase que dizia: “O sono é uma morte menor”(…). Não pode conter o riso irônico. Tantas palavras, letras, e pessoas rumando de uma lado para outro mergulhadas em seus pensamentos, em suas doses, e desejos, não teriam eles tempo para estender a mão e tirá-lo de seu abismo, desta dificuldade que chamamos de vida; cabisbaixo começou a sentir o peso da mão de Morfeu, olhou para o céu daquele dia quente de verão, e abandonou o livro aí e rumou para sua casa morrer uma vez mais…

Anúncios

Gostou do texto? Não gostou? Deixe seu comentário aqui! Continue lendo os outros artigos do blog!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s